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6 de setembro de 2013

Ser mãe de uma “menina de Odivelas”

É necessário fazer uma prévia declaração de interesses: sou professora no Instituto de Odivelas (IO) há mais de vinte anos, sou mãe de uma aluna do IO e de uma candidata a aluna do IO. As razões profissionais ou familiares poderiam ser suficientes para defender a continuidade do IO como escola única e de excelência no panorama educativo nacional e onde há liberdade de ensinar e de aprender. Mas não bastam! Tal liberdade, hoje constitucionalmente consagrada, não foi contestada no passado, sequer pelo regime republicano nascido a 5 de outubro de 1910. Note-se que o Instituto Infante D. Afonso, na sua primeira designação, foi fundado sob o alto patrocínio da Casa Real: o rei D. Carlos, a rainha D. Amélia, a rainha D. Maria Pia e o Infante D. Afonso. Ora, a I República olhou mais longe e mais alto que as meras questões ideológicas ou os eternos problemas económicos e financeiros, e viu mais perto quanto à pertinência de uma escola como o então Instituto Feminino da Educação e do Trabalho, continuar a educar e formar, de forma inovadora e integral, futuras mulheres que não se circunscreviam exclusivamente ao “domus” ou ao “pater famílias”. 

Acresce que nem a seguir ao 25 de abril de 1974, e nos tempos revoltosos e tumultuosos do PREC, o IO foi posto em causa. Porém, desde finais do século XX, que se sentiram algumas ameaças, mais ou menos veladas, mas que justamente a racionalidade, a razoabilidade, o bom senso e a boa sensibilidade afastaram, durante algum tempo…

Ser menina de Odivelas em Odivelas é um valor nacional que não se compadece com mediatas imediatas e mediáticas que ignoram os 113 anos de história do IO. Como professora sei perfeitamente que não estou numa escola de elites mas sim numa escola que necessita de ser defendida e acarinhada pelos poderes públicos. Ensinei e ensino alunas, filhas de militares e de civis, internas e externas, provenientes de todo o país, dos PALOP e oriundas de diversos estratos socioeconómicos.

-  Acredito no Projeto Educativo do IO.

-  Acredito no ensino diferenciado por género. 

-  Acredito no ensino público pago por opção e convicção, sem parcerias público privadas, essas sim ruinosas, nalguns casos, para o Erário Público e envoltas em interesses pouco “educativos”.

-  Acredito que as minhas filhas não estão numa reserva ou “zona de conforto” nem numa “coutada de casta” de “filhas-família”.

-  Acredito que só no IO as minhas filhas podem aprender a viver numa sociedade que se deseja tão igual quanto diversa e, por isso, a serem melhores cidadãs.

-  Acredito que o Mosteiro de S. Dinis e de S. Bernardo de Odivelas não vive sem o Instituto de Odivelas – Infante D. Afonso.

-  Acredito que os claustros, a olaia, as glicínias, os jacarandás, a árvore “Avó”, os azulejos, a cantaria gótica, manuelina e barroca, o teto bonito em madeira policromada do refeitório das monjas não sobrevivem sem a presença das meninas de Odivelas.

-  Acredito, por dever pessoal e profissional, que "a memória cativa as coisas num lugar fabuloso que é onde mora a esperança" (Agustina Bessa-Luís)

DUC IN ALTUM! (CADA VEZ MAIS ALTO!)

Margarida Cunha


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